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O Blog do Bega

Sobral, onde a luz fez a curva.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Conheça o U2, o avião que os americanos querem tirar do ar


     Até o fim da 2ª Guerra Mundial aviões de reconhecimento agiam com certa impunidade. Quando possível voltavam ao perceber caças inimigos, ou voavam bem alto, fora do alcance das armas. A maior parte das baixas foi causada pela falta de tecnologia nas câmeras, forçando os pilotos a voar baixo.
     Com o desenvolvimento de sistemas de mísseis e caças de alta performance, mais de 100 aviadores perderam a vida ou foram capturados pelos russos, quando tentavam violar o espaço aéreo soviético. Era preciso um avião que voasse tão alto que o inimigo não conseguisse derrubar. A tarefa de desenvolver esse avião caiu nas mãos de um gênio excêntrico chamado Kelly Johnson, responsável por aviões clássicos como o P80, o Electra e o avião mais lindo do mundo, o P-38 Lightining.
     Johnson e sua equipe da Skunk Works, a Divisão de Projetos Secretos da Lockheed se sentaram com o cliente, que no caso era a CIA. Espionar a Rússia se tornou tão prioridade que uma agência de espionagem ia ganhar sua própria força aérea. Definiram as especificações, e eram sinistras. O U2 deveria voar 15 mil pés acima dos mísseis, caças e radares inimigos. Seu alcance seria de 4.000 milhas, sem reabastecimento.
     O U2 levaria duas câmeras, projetadas por Edwin Land, criador da Polaroid, produziria imagens com resolução equivalente a 60 cm/pixel, fotografando de 70 mil pés. Cada rolo de filme teria 3.600 pés de comprimento. Mais de 1 km de filme. Cada negativo tinha 13 × 13 polegadas.
     O projeto do U2 foi tão sigiloso que nem as plantas tinham o nome da Lockheed. As peças encomendadas de fornecedores externos eram enviadas para uma cidade próxima para uma empresa laranja. A parte da Skunk Works que cuidou do U2 não tinha nem secretárias nem faxineiros. Os engenheiros (ok, provavelmente os estagiários) limpavam os banheiros eles mesmos.
     O U2 era mais planador do que avião. Se o motor apagasse a 70 mil pés ele planaria por 400 km até chegar ao solo. O peso era tão importante que as rodas das asas caíam quando ele decolava. Como o trem de pouso ventral exigia um ângulo próximo de zero, um carro com um controlador de pouso acompanhava o avião, excelente desculpa pra CIA comprar Mustangs, Dodge Challengers e Camaros.
     A 70 mil pés o U2 voava no limite, que os pilotos chamam de Canto do Caixão. Todo avião tem uma velocidade mínima, abaixo da qual ele estola, perde sustentação. Essa velocidade depende da altitude. Quanto mais alto, mais alta é essa velocidade, pois você precisa estar mais rápido para compensar a baixa pressão atmosférica.
     O U2 voava tão no limite que a 70 mil pés seu motor tinha 7% da potência ao nível do mar.
     Todo avião também tem uma velocidade chamada NDE — Never Exceed Speed. Acima dessa velocidade tudo pode acontecer, a estrutura do avião provavelmente irá se despedaçar. No U2 voando a 70 mil pés a diferença entre a Velocidade de Estol e a Never Exceed Speed era de 19 km/h. Ou seja: o sujeito tinha que controlar no braço o avião para permanecer entre os dois valores. Enquanto tirava fotos, identificava caças e mísseis inimigos, calculava combustível remanescente e tentava não se confundir e comer a pílula de suicídio achando que era uma bala. SIM, quase aconteceu uma vez.
     Com tudo isso o U2 ainda assim foi um sucesso fenomenal. Depois do primeiro vôo, em 1956, os russos tentaram de tudo. Houve época em que metade da força aérea foi mobilizada atrás do U2. Um piloto recorda ter visto dois MiGs estolando e colidindo, tentando chegar até sua altitude. Durante um tempo tentaram uma estratégia de colocar os caças em vôo balístico, chegando a 68 mil pés, mesmo sabendo que o motor desligaria, cairiam de volta e talvez não conseguissem controlar a aeronave. Não deu certo.
     O U2 foi usado na Rússia, em Cuba, na Melhor Coréia. Sua agilidade em relação aos satélites era enorme. Na época os satélites ejetavam cartuchos de filme que eram recuperados (ou não). Eram semanas, às vezes meses até as imagens chegarem ao National Reconnaissance Office. Com o U2 era uma questão de horas.
     Isso durou até 1960, quando um U2 pilotado por Francis Gary Powers penetrou (epa) o espaço aéreo soviético e foi perseguido por tudo que os russos tinham. Uma hora ele entrou no alcance de uma bateria de mísseis SA-2, esse brinquedo aqui:


     Os russos lançaram tudo que tinham, 14 mísseis, que não chegaram aos 65 mil pés do U2 mas ao menos derrubaram um dos MiG-19 que o perseguiam. Nisso um Sukhoi 9 comandado por  Igor Mentyukov se aproximou do U2. Normalmente a altitude máxima do russo seria de 55 mil pés, mas o caça havia sido preparado para aquela missão. Removeram todo o equipamento não-essencial, inclusive o armamento. O desespero era tanto que a ordem era abalroar o americano.
     Igor, abrindo mão do fatalismo russo decidiu tentar algo diferente: Entrou na frente do U2, fazendo com que ele passasse pela turbulência de seu Sukhoi. O U2 perdeu o controle, girou, a asa se partiu e Francis Gary Powers ejetou, sendo capturado e gerando toda a propaganda que os EUA não queriam. O piloto foi solto em 1962, em uma troca de prisioneiros, mas os U2 estavam fadados a nunca mais voar na União Soviética.
     Depois disso eles foram substituídos pelo SR-71, também obra de Kelly Johnson e alguns consultores alienígenas. Lançado em 1966 Até hoje ele detém recordes de altitude — 85.069 pés e velocidade — 3.529,6 km/h. Mesmo assim foi aposentado em 1999, enquanto o U2 continua voando até hoje.
     O SR-71 era caríssimo, difícil de pilotar, de dar manutenção, e seu trabalho foi substituído por satélites. Não há necessidade de arriscar um piloto quando uma caixa de câmeras em órbita fotografa tudo em tempo real. É muito mais barato usar um U2, com países que não possuem capacidade de defesa antiaérea decente. Pra que gastar um SR-71 ou mesmo um satélite com o Yemen ou a Somália?
     Mesmo assim, o U2 está com os dias contados. Os drones andam cada vez mais poderosos. Máquinas como o Global Hawk passam dias no ar, são profundamente automatizadas e se forem derrubadas, azar dos chips. Só que colocando no papel, não é tão simples. O U2 deveria ter sido aposentado em 2012, mas ninguém quer arcar com os custos.
     É um projeto com 58 anos de idade. Está mais que amortizado. A hora de vôo de um U2 custa US$ 2.380,00. Um drone GlobalHawk custa US$ 6.710,00. Aposentar os U2 resultaria em uma economia de US$ 2,2 bilhões, mas para isso os Global Hawks precisam ser modernizados. US$ 1,77 bilhões na conta. E como isso não acontece de uma hora pra outras, os dois programas rodarão juntos. MAIS despesa.

     Detalhe: a Força Aérea quer se livrar do U2, mas gradativamente. O Orçamento de Defesa está pra ser votado nos EUA, e o risco agora é que eliminem o U2, mas não priorizem o Global Hawk. Os EUA terminarão com um buraco nas defesas. Na melhor das hipóteses o U2 repetirá exatamente o que aconteceu com o A-10 Thunderbolt II, que barbarizou na Bósnia e na 1ª Guerra do Golfo, foi aposentado, reconvocado para a 2ª Guerra do Golfo e agora se aposentar, só depois de 2025.


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