A curiosa história de Alexander Selkirk, o homem que inspirou o romance Robinson Crusoe

      O Arquipélago de Juan Fernandez, a 600 km da costa chilena, até hoje conta com pouco mais de 500 habitantes. Estas pequenas ilhas repletas de lagostas são paraísos naturais quase intocados, que foram declarados Patrimônios da Humanidade pela Unesco.     Ao contrário de sua vizinha mais famosa, Ilha de Páscoa, totalmente devastada pelos nativos séculos atrás, as ilhas Juan Fernandez possuem vegetação rica, várias fontes de água, frutas e alguns pequenos animais, podendo tranquilamente servir de moradia para um eremita em busca de isolamento.
     E foram exatamente estas características aliadas ao destino de um marinheiro escocês que ajudaram o escritor inglês Daniel Defoe a criar uma das grandes histórias da literatura de aventura moderna: Robinson Crusoe.
     Alexander Selkirk nasceu em 1676 na cidade de Lower Largo, na Escócia. Filho de um sapateiro que fazia seu próprio couro, desde cedo aprendeu a manipular e costurar peles de animais.
     Porém, desde muito cedo a impetuosidade e desprezo de Selkirk pelas regras estabelecidas deixavam perceber uma outra característica que foi crucial para que ele enfrentasse o que estava por vir: Selkirk não gostava de pessoas, e preferia o isolamento a conviver com quem não gostava.     Aos 19 anos, depois de envolvimento em muitas brigas e desavenças, foi acusado de "comportamento indecente na igreja", e antes da realização da audiência que definiria seu castigo, alistou-se como bucaneiro numa galé (veleiro movido com a ajuda de remos) que sairia em viagem para os mares do Sul.     Em 1704, seu navio lançou âncora na desabitada Juan Fernandez para reabastecimento de água fresca. Naquele momento Selkirk estava muito preocupado com as condições precárias do navio, que não resistiria à primeira tempestade tropical, e tentou convencer alguns companheiros a desertar, sem sucesso.
     E foi neste momento que tomou a atitude que iria mudar toda sua vida: pediu ao seu capitão que fosse deixado na ilha de Juan Fernandez, pois temia pela sorte da embarcação, e foi atendido.
     E com a certeza de que algumas semanas depois seria resgatado por outro navio que passasse pela Ilha, foi deixado sozinho com algumas provisões, uma arma, facas, cordas e um kit de ferramentas. Selkirk se arrependeu no exato momento em que o navio começou a se afastar da praia, mas apesar de seus gritos e pedidos, começava sua aventura solitária. Curiosamente, seus instintos estavam certos, e o Cinque Ports afundou um mês depois, matando a maioria de seus companheiros.
     Durante algum tempo teve receio de se embrenhar no interior da ilha, e ficava restrito às praias, vivendo de ostras e outros crustáceos. Somente depois que grupos de leões marinhos nada amigáveis invadiram as praias, tomou coragem para explorar a mata, onde encontrou frutas, novas fontes de água e principalmente um grupo de cabras deixadas por visitantes anteriores, que lhe forneceria couro, leite e carne durante sua estadia.
    Consumido pelo remorso, culpa e desespero, todos os dia buscava por navios no horizonte na esperança de um resgate que não chegava nunca. Fora das rotas comerciais, a ilha era muito menos visitada do que Selkirk pensava...
     O tempo foi passando, e depois que suas roupas se esfarraparam, graças aos conhecimentos no trato do couro ensinados pelo pai, fez túnicas de pele de cabra que o aqueceram durante os frios invernos da costa chilena. Com o que a ilha lhe oferecia, Selkirk demonstrou uma inteligência e perspicácia fora do comum, permitindo sua sobrevivência em total isolamento.     O tão esperado resgate veio apenas 4 anos depois, em Fevereiro de 1709, através de um navio da mesma companhia que o deixara na ilha anos antes. Neste intervalo de tempo, dois outros navios haviam passado por aquelas praias, mas eram espanhóis, inimigos mortais dos britânicos à época, obrigando Selkirk a se esconder no meio da mata para não ser encontrado.     Depois de alguns meses em sua cidade natal, ele não suportou a rotina e lançou-se novamente ao mar. De acordo com o diário de bordo do navio em que servia, Selkirk morreu em 1721. Ironicamente, a causa de sua morte foi Febre Amarela, uma doença tropical que não o havia acometido durante anos em uma ilha selvagem.
    Existem grandes semelhanças entre os relatos de Alexander Selkirk e o romance "Robinson Crusoe" escrito por Daniel Defoe em 1719. A ilha em que ocorreu o exílio hoje é chamada de "Ilha Robinson Crusoe", e entre suas atrações está um campo arqueológico onde foram encontrados instrumentos do século XVIII que teriam sido usados por Selkirk durante sua permanência na ilha.
Fonte:rioblog

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